O Brasil vive um momento de expansão relevante no setor rodoviário. Segundo a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), o país deve receber cerca de R$ 400 bilhões em investimentos no setor ao longo dos próximos oito a dez anos, apenas em rodovias sob concessão. Trata-se de um ciclo que coloca a infraestrutura viária no centro da agenda econômica nacional.
No entanto, o país ainda tem muito a evoluir quando falamos sobre a expansão da malha rodoviária. A Europa, por exemplo, expandiu sua rede de autoestradas em 60% entre 1995 e 2020, com um acréscimo de 30.000 quilômetros.
Já o Brasil registrou crescimento de 43,2% entre 1985 e 2024, o que representa 20.000 quilômetros adicionais nas rodovias federais. O ritmo relativo ainda indica espaço considerável para avanços.
O impacto econômico desse investimento é expressivo. De acordo com um estudo da CNT divulgado em 2026, cada real aplicado em rodovias pode gerar até R$ 4,77 no PIB do setor de transporte em menos de um ano. O retorno, porém, varia conforme a origem dos recursos.
Quais são os principais gargalos da gestão pública de obras?
Apesar do potencial econômico dos investimentos, o setor público enfrenta obstáculos estruturais que impactam diretamente a eficiência das obras rodoviárias. Compreender esses gargalos é o primeiro passo para superá-los por meio de soluções tecnológicas e de gestão.
Entre os desafios mais recorrentes, destacam-se três aspectos que limitam a capacidade de execução dos governos:
Orçamento público anual e sujeito a contingenciamento
O ciclo orçamentário anual impõe restrições à continuidade dos investimentos em infraestrutura. Obras de maior porte, que demandam planejamento plurianual, ficam sujeitas a interrupções causadas por revisões orçamentárias ao longo do exercício fiscal.
Esse cenário exige dos gestores públicos uma capacidade de adaptação constante, com impactos diretos na programação das obras e na relação com contratadas e fornecedores.
Licitações e contratações com múltiplas etapas de controle
Os processos licitatórios na administração pública envolvem diversas fases de análise e aprovação. Embora essas etapas sejam fundamentais para garantir transparência e conformidade legal, a ausência de ferramentas digitais adequadas torna o fluxo lento e suscetível a inconsistências.
A integração entre sistemas de planejamento, contratação e execução ainda é um desafio em muitos órgãos públicos, o que compromete a visibilidade do processo como um todo.
Gestão e fiscalização fragmentadas e despadronizadas
Em contextos onde cada secretaria adota seus próprios instrumentos de controle (sejam planilhas, documentos físicos ou sistemas isolados), a obtenção de informações consolidadas se torna complexa.
A fragmentação dificulta o monitoramento em tempo real, eleva o retrabalho das equipes e reduz a capacidade de resposta dos gestores diante de desvios ou imprevistos nas obras.
Como Pernambuco vem otimizando sua gestão de obras
Para avançar nos gargalos estruturais que afetam a gestão pública de obras, governos precisam investir em padronização, integração de dados e processos digitais.
Diante desse cenário, o governo do estado de Pernambuco fez uma pergunta simples: como garantir que bilhões de reais investidos se transformem efetivamente em entregas para a população?
Apresentamos a experiência pernambucana no 28º Encontro Nacional de Conservação Rodoviária (Enacor) e na 51ª Reunião Anual de Pavimentação (RAPv), realizado em Goiânia, em junho de 2026.
Antes da implantação da plataforma Obras.PE, a realidade do estado reproduzia um padrão comum na administração pública brasileira: cada secretaria operava de forma independente, com sistemas próprios, planilhas e documentos físicos ou digitais sem padronização entre si.

O cenário anterior à transformação
O Secretário da Controladoria-Geral do Estado, Renato Barbosa Cirne, descreveu o panorama antes da transformação digital:
“Cada secretaria tinha ou soluções próprias ou soluções e controles através de planilhas e documentos físicos e digitais. Isso fazia o processo ter muitos problemas em relação à padronização. Então a gente tinha dificuldades sobre o acompanhamento, resultado e diálogo por meio das empresas.”
Essa configuração gerava processos lentos, retrabalho constante e dificuldade de monitoramento efetivo das obras. A falta de integração entre órgãos tornava impraticável qualquer esforço de consolidação de informações gerenciais.
Diante desse cenário, o estado identificou a necessidade de garantir padronização e unificação dos processos, permitir o acompanhamento das obras em tempo real e criar mecanismos mais eficientes de prestação de contas à sociedade e aos órgãos de controle.
Como Pernambuco estruturou a adoção da plataforma
A implantação da solução seguiu um processo estruturado, baseado em um grupo de trabalho multissetorial. Secretarias das áreas de educação, saúde, segurança, habitação e recursos hídricos foram envolvidas desde o início.
Segundo o secretário, o objetivo era chegar a um denominador comum das necessidades de cada órgão:
“A partir desse debate é que conseguimos fazer uma solução de forma integrada, gerida por um sistema a partir de um órgão central, para conseguir padronizar todo o processo de gestão e resultado do trabalho.”
Essa abordagem colaborativa foi determinante para que a plataforma atendesse às especificidades de cada área, sem perder a coerência de um sistema unificado de gestão.
A plataforma Obras.PE foi estruturada com módulos complementares, cada um voltado a uma etapa do ciclo de gestão de obras.
A integração entre esses módulos é o que garante a visibilidade completa do processo.
Os módulos essenciais adotados pelo estado foram:
- Composição de Custos e Orçamentos (SCO)
- Gestão de Contratos e Medições (SMO)
- Sistema de Gerenciamento Financeiro (SGF)
- Mapa Interativo de Obras
- Diário de Obras
- Painéis de Indicativos de Obras
Resultados alcançados com a plataforma
A padronização dos processos foi o resultado mais imediato percebido pelo estado. Nas palavras do secretário:
“Uma vez que conseguimos padronizar sobre o padrão mínimo do estado, a gente conseguiu agilidade e efetivamente viu que esse fluxo pode ser aperfeiçoado. Hoje a gente consegue capacitar, mesmo que haja rotatividade das equipes de engenharia e gestão de obras, a gente consegue manter o mesmo padrão de qualidade e resultado do trabalho.”
A transparência também foi ampliada de forma significativa. A plataforma permitirá o envio automatizado de informações ao Tribunal de Contas de Pernambuco, reduzindo o tempo das equipes dedicado à geração e à transmissão de dados para órgãos externos. Segundo o secretário, o impacto vai além da eficiência operacional:
“Efetivamente conseguimos demonstrar ainda mais confiança da população sobre o trabalho do estado.”
A capacidade de prestar contas de forma ágil e estruturada fortalece a relação entre o governo e a sociedade.
Próximos passos da transformação digital em Pernambuco
A experiência acumulada com a plataforma já aponta para novos horizontes. O estado planeja avançar na integração com o Tribunal de Contas de Pernambuco, replicar o modelo nas instituições da administração indireta e expandir a gestão estratégica com o uso de inteligência artificial.
Esses próximos passos indicam que a transformação digital da gestão de obras não é um evento pontual, mas um processo contínuo de aprimoramento institucional. O caminho percorrido por Pernambuco demonstra que a adoção de tecnologia de forma estruturada pode transformar não apenas os processos internos, mas também a capacidade do Estado de gerar valor público.
O cenário das rodovias brasileiras e a experiência de Pernambuco revelam que os desafios da gestão de obras públicas têm solução. A tecnologia, quando implementada de forma planejada e integrada, permite que governos saiam de processos fragmentados e manuais para uma gestão baseada em dados, transparência e eficiência. A modernização da gestão de obras é, portanto, um caminho concreto para que o Brasil aproveite melhor o ciclo de investimentos rodoviários que está em curso.
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Executivo de Novos Negócios na Softplan, focado no segmento de infraestrutura e transportes. Formado em Engenharia de Controle e Automação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é especialista em desenvolvimento de novos negócios no segmento de Mobilidade Urbana e Gestão de Infraestrutura há mais de 10 anos.
