Impulsionada por marcos regulatórios como a Lei do Governo Digital (Lei nº 14.129/2021), a Lei de Assinaturas Eletrônicas (Lei nº 14.063/2020) e o Decreto nº 10.278/2020, a transformação digital na gestão pública deixou de se resumir à modernização dos sistemas de informática.
Hoje, abrange a eficiência de processos, e-serviços e governança de dados para tomada de decisões. O avanço da inteligência artificial (IA) impôs um novo ritmo, mas a maturidade tecnológica ainda é heterogênea.
Essa percepção tem como fonte pesquisas recentes sobre tecnologia e IA na administração pública, notadamente a TIC Governo 2025, feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), e o Panorama da Gestão Pública Municipal 2026, da Softplan.
A adoção da tecnologia na rotina pública é um fenômeno irreversível e em plena ascensão, mas persistem marcantes assimetrias de estrutura. Observados ao lado do Panorama, os dados da TIC Governo 2025 indicam que a digitalização avança motivada pela legislação, mas esbarra em entraves de pessoas, processos e integração.
O que os dados revelam sobre o atual estágio da tecnologia no setor público
O Panorama obteve dados que convergem com a TIC Governo 2025. Ambos mapearam que as prefeituras brasileiras se encontram num patamar próximo de utilização de Inteligência Artificial: 26%, de acordo com o Panorama 2026, e 27%, segundo a TIC Governo.
A pesquisa do Cetic.br mostra que esse percentual varia drasticamente conforme o porte populacional, sendo:
- 22% em municípios com até 10 mil habitantes;
- 27% naqueles com 10 mil a 100 mil;
- 54% nos de 100 mil a 500 mil;
- 85% nas cidades com mais de 500 mil habitantes.
Essa disparidade reflete assimetrias na infraestrutura básica de TI: apenas 33% das prefeituras de até 10 mil habitantes possuem departamento próprio de TI, proporção que salta para 58% (de 10 mil a 100 mil habitantes), 90% (de 100 mil a 500 mil habitantes) e 96% nos grandes municípios.
Embora 96% das prefeituras possuam website, a existência de um portal não garante a digitalização de ponta a ponta, podendo funcionar apenas como vitrine para rotinas internas baseadas em papel.
Quando o olhar se volta para os órgãos federais e estaduais, a TIC Governo 2025 revela um ecossistema em patamar tecnológico significativamente superior ao municipal. A adoção de Inteligência Artificial atinge 59% do total desses órgãos (55% na esfera federal e 59% na estadual).
A análise por Poder expõe um forte protagonismo do Judiciário (94%) e do Ministério Público (92%), seguidos pelo Legislativo (83%) e pelo Executivo (55%).
Essa liderança dos órgãos do sistema de justiça também se reflete nas iniciativas de IA generativa para processos internos, presentes em 86% das unidades do Judiciário e 88% do Ministério Público.
Essa maior maturidade na esfera federal é sustentada por instrumentos mais sólidos de governança. Na União, 97% dos órgãos federais contam com plano estratégico ou diretor de TI, e 89% possuem plano de segurança da informação (frente a 50% e 54% na esfera estadual, respectivamente).
A isso se soma a exigência de cadastro ou login para acesso a serviços online, que atinge 56% no nível federal, 55% no Judiciário e 64% no Ministério Público, o que indica serviços mais personalizados e integrados à identidade digital do cidadão.
Em conjunto, os dados mostram que a transformação digital no setor público brasileiro avança em múltiplas velocidades, em que a União e o Judiciário lideram a fronteira tecnológica, enquanto os pequenos municípios ainda buscam consolidar suas estruturas básicas de TI.
Os mesmos gargalos, vistos de dentro da prefeitura
A tecnologia pode ampliar a capacidade de uma prefeitura, mas não resolve, sozinha, problemas organizacionais quando as iniciativas se dão de maneira isolada.
Esse é um dos principais pontos revelados pelo Panorama 2026. Entre os desafios apontados pelos servidores, aparecem a falta de integração entre setores e secretarias, a resistência à mudança e a carência de equipes qualificadas.
Esses obstáculos ajudam a explicar por que a digitalização nem sempre produz, na mesma velocidade, os resultados esperados.
Um sistema pode ser implantado em uma secretaria, mas, se não dialogar com outras áreas, parte do ganho potencial desaparece. É esse o problema apontado por 44% dos participantes do Panorama.
Na mesma toada, processos digitalizados podem continuar lentos quando reproduzem, em ambiente eletrônico, etapas desnecessárias que já existiam no papel.
O diagnóstico também encontra correspondência na TIC Governo 2025. Entre as prefeituras que não utilizam inteligência artificial, 40% apontam a falta de pessoas capacitadas como uma das razões para a não adoção, em convergência com o Panorama, que teve esse problema apontado por 38% dos participantes.
Custos elevados aparecem para 34%, enquanto 36% dos participantes indicam que a tecnologia ainda não é uma prioridade. Em relação aos custos, o Panorama da Softplan aponta outro lado da questão: prefeituras mais digitalizadas relatam redução de gastos, o que indica que o investimento tende a ser compensado ao longo do tempo.
Também são relevantes as dificuldades relacionadas à qualidade ou disponibilidade dos dados e à compatibilidade com sistemas existentes.
A mensagem é clara: a transformação digital envolve tecnologia, mas também processos, pessoas, dados e cultura organizacional, sendo essa última questão apontada como um dos desafios para 42% dos participantes do Panorama.
Investir em ferramentas sem preparar a estrutura administrativa para utilizá-las pode produzir uma digitalização apenas superficial, distante de seu potencial de transformação.
O Panorama também chama atenção para atividades que concentram esforço operacional, como compras e licitações, gestão documental e planejamento orçamentário.
São áreas em que a combinação entre procedimentos formais, circulação de documentos e participação de diferentes setores pode consumir tempo significativo dos servidores.

Atendimento ao cidadão: o presencial ainda reina, mas o digital ganha terreno
O atendimento presencial continua ocupando espaço relevante nas prefeituras. Segundo o Panorama da Gestão Pública Municipal 2026, da Softplan, 73% dos municípios utilizam esse canal. Websites e portais aparecem em 60%, o telefone em 56% e o WhatsApp em 50%.
Os dados mostram que os canais digitais já fazem parte da relação com o cidadão, mas ainda convivem com formas tradicionais de atendimento.
A TIC Governo 2025 oferece outro recorte: entre as prefeituras com central de atendimento para solicitação de serviços públicos, 83% utilizam o telefone, 64% WhatsApp ou Telegram e 50% o website.
Como as pesquisas adotam perguntas e metodologias diferentes, os percentuais não devem ser comparados diretamente. Em conjunto, contudo, indicam que a digitalização amplia as possibilidades de atendimento sem eliminar, por enquanto, a demanda pelos canais presenciais.
O papel ainda não foi embora
A presença de portais e serviços digitais não significa que o papel tenha deixado de ocupar espaço nas prefeituras.
Segundo o Panorama, apenas 14% dos municípios se encontram próximos de uma digitalização integral. Outros 49% utilizam papel em apenas alguns setores, enquanto 37% ainda fazem uso excessivo de documentos físicos em diversas áreas.
Os dados revelam que a transição não ocorre de maneira uniforme nas prefeituras. É possível encontrar setores com processos predominantemente digitais convivendo com outros em que documentos continuam sendo impressos, assinados, protocolados e posteriormente digitalizados.
Essa fragmentação tem efeito direto sobre a eficiência. O Panorama identificou que problemas de lentidão nos processos são 22,4 pontos percentuais mais frequentes nos municípios com maior uso de papel do que nos mais digitalizados.
Também foram relatadas dificuldades de gestão documental por 58,7% dos municípios nesse grupo e problemas de integração por 52,2%.
A questão, portanto, não é simplesmente substituir papel por arquivos eletrônicos. Digitalizar significa redesenhar o fluxo para que o documento possa ser criado, tramitar, receber manifestações, ser assinado, armazenado e localizado sem precisar retornar ao circuito físico.
Inteligência artificial: quando dois levantamentos chegam praticamente ao mesmo número
É na inteligência artificial que os dois levantamentos apresentam uma convergência especialmente interessante.
O Panorama da Gestão Pública Municipal 2026 aponta que 26% das prefeituras já utilizam soluções baseadas em IA. A TIC Governo 2025 chegou a 27%.
Embora as pesquisas tenham metodologias próprias e não devam ser tratadas como medições idênticas, a proximidade dos resultados revela a mesma ordem de grandeza: a IA já está presente em aproximadamente um quarto das administrações municipais.
O mais importante, entretanto, é compreender para que ela está sendo utilizada.
No Panorama, entre os usos identificados estão aplicações relacionadas à gestão documental e análise de processos, ao atendimento ao cidadão e à comunicação institucional.
O movimento faz sentido, tendo em vista que são áreas caracterizadas por grande volume de informações, documentos e interações, justamente onde ferramentas de automação e análise podem gerar ganhos mais perceptíveis.
A TIC Governo também mostra usos associados à automação de processos, operações internas e melhoria dos serviços públicos.
Isso indica que a IA não precisa começar por projetos complexos. Em muitos casos, sua primeira contribuição está em tarefas mais delimitadas, como organizar informações, localizar conteúdos, automatizar respostas, apoiar servidores na elaboração e conferência de documentos e acelerar etapas operacionais.
A relação com a digitalização anterior também é importante. Uma prefeitura que ainda enfrenta dificuldades para integrar sistemas e organizar documentos terá mais obstáculos para extrair valor de aplicações avançadas de IA.
Nesse sentido, a inteligência artificial não substitui a transformação digital, dada a relação de dependência com sua maturidade.
O que esperar nos próximos anos
O cenário tende a mudar rapidamente. Segundo o Panorama, além dos 26% de prefeituras que já utilizam IA, outras 34% pretendem implementar soluções em breve. Somados, os dois grupos representam aproximadamente seis em cada dez administrações municipais em um futuro próximo.
Isso apresenta uma nova agenda para os gestores. O desafio não será apenas decidir se vale a pena adotar determinada tecnologia, mas estabelecer onde ela pode produzir resultados concretos, como os dados serão protegidos, quais processos serão transformados e como os servidores serão preparados.
A próxima etapa da transformação digital municipal tende, portanto, a combinar três movimentos:
- Digitalizar processos que ainda dependem de papel;
- Integrar sistemas e informações que permanecem fragmentados;
- Utilizar automação de documentos e inteligência artificial para ampliar a capacidade das equipes.
A tecnologia também precisará ser incorporada à estratégia administrativa, e não tratada como um projeto isolado. Afinal, sistemas e contratos podem permanecer por anos, atravessando diferentes ciclos de governo.
Conclusão
Os dados mais recentes mostram que a transformação digital das prefeituras brasileiras já deixou de ser uma perspectiva distante. A inteligência artificial chegou a uma parcela relevante dos municípios, os canais digitais ampliaram sua presença e diversas administrações já avançaram na digitalização de processos e serviços.
Mas o Panorama da Gestão Pública Municipal 2026 mostra que ainda há uma distância entre disponibilizar tecnologia e transformar efetivamente a gestão. Falta de integração, resistência à mudança, carência de profissionais qualificados e permanência de processos manuais seguem limitando os resultados.
O próximo salto, portanto, não dependerá apenas de adotar ferramentas mais sofisticadas. Ele estará na capacidade de conectar tecnologia, pessoas, processos e dados em torno de problemas concretos da administração pública.
Para as prefeituras, modernizar significa fazer com que a tecnologia deixe de ser apenas uma camada sobre a morosidade existente e passe a contribuir, de fato, para uma gestão mais integrada, ágil e orientada às necessidades do cidadão e ao interesse público.
Com o avanço da IA no setor público, o desafio dos gestores é transformar dados em decisões rápidas e assertivas, sem abrir mão da ética e da segurança jurídica.
A Softplan desenvolve inteligência artificial pensada especificamente para as demandas da administração pública, garantindo eficiência operacional e governança. Acesse e veja como aplicar a IA na sua gestão com responsabilidade e ética.
Advogado, bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (FND/UFRJ). Atualmente concilio a advocacia privada com o cargo de Residente Jurídico do Município do Rio de Janeiro, com atuação nas áreas de contratos, serviços públicos e contencioso tributário.
