A 10ª edição do Encontro Nacional de Tecnologia e Inovação dos Ministérios Públicos (ENASTIC MP) reuniu lideranças e especialistas do sistema de Justiça para discutir os próximos passos da transformação digital no setor público. O evento foi realizado entre os dias 11 e 13 de março de 2026, em Goiânia (GO), no Tribunal de Contas do Estado de Goiás, consolidando-se como um dos principais encontros voltados à inovação e tecnologia para o Ministério Público brasileiro.
Participar desta edição do ENASTIC MP foi uma oportunidade relevante para aprofundar o diálogo com lideranças do sistema de Ministérios Públicos sobre os caminhos da modernização institucional no setor público. A presença da Softplan no encontro, como expositora e integrante da programação, reforçou a importância de discutir não apenas a adoção de novas tecnologias, mas principalmente a forma como elas se integram à estrutura de governança das instituições.
Durante a programação, apresentei a palestra “Modernização institucional e governança: eficiência como base da atuação resolutiva dos MPs”, propondo uma reflexão sobre um ponto que considero central para o momento atual das organizações públicas: a transformação digital só gera resultados consistentes quando está apoiada em processos estruturados, integração entre áreas e uma base sólida de governança institucional.
Mais do que um evento voltado à tecnologia, o ENASTIC tem se consolidado como um espaço de reflexão sobre a evolução das instituições diante de desafios cada vez mais complexos da sociedade.
Ao longo dos últimos anos, acompanhando de perto o ecossistema do sistema de Justiça, ficou claro que o desafio atual vai além da digitalização de processos. Hoje, instituições atendidas pela Softplan lidam com milhões de novos processos por ano, em um cenário de crescente complexidade operacional e necessidade de maior controle sobre dados, fluxos e decisões. Em 2025, por exemplo, os Ministérios Públicos que utilizam soluções do ecossistema SAJ registraram mais de 5,7 milhões de novos casos, evidenciando a dimensão do desafio institucional.
O novo contexto institucional dos Ministérios Públicos
Os Ministérios Públicos vivem um momento de ampliação de responsabilidades e de crescente complexidade institucional. A sociedade exige respostas mais rápidas e maior transparência, ao mesmo tempo em que cresce o volume de dados, processos e atividades administrativas a serem gerenciadas.
Nesse contexto, eficiência institucional deixa de ser apenas um objetivo de gestão e passa a ser uma condição estratégica para a atuação resolutiva das instituições. Mais do que acelerar fluxos ou reduzir prazos, o desafio está em garantir que a organização consiga atuar de forma coordenada, com segurança jurídica, previsibilidade e controle sobre suas operações.
A tecnologia tem um papel fundamental nesse processo, mas a experiência mostra que a transformação digital só produz resultados consistentes quando está sustentada por estruturas sólidas de governança. É essa base que permite integrar processos, organizar informações e dar às instituições a capacidade de evoluir com segurança diante de um cenário cada vez mais exigente.
Tecnologia sem governança não sustenta transformação
Em muitos projetos de modernização, a transformação digital começa pela adoção de novas ferramentas. No entanto, quando esse movimento ocorre sem uma visão estruturada de governança, surgem problemas recorrentes, como fragmentação de sistemas, duplicidade de informações e dificuldade de integração entre áreas.
Nesses casos, a tecnologia passa a operar de forma isolada, sem produzir impacto consistente na atuação institucional.
A modernização institucional exige uma abordagem mais ampla, que envolve estratégia, organização de processos, governança de dados e integração entre diferentes áreas da instituição. Quando esses elementos estão alinhados, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta operacional e passa a atuar como infraestrutura da gestão pública, sustentando a tomada de decisão com mais previsibilidade e controle.
Esse é um passo essencial para que a transformação digital deixe de ser um projeto pontual e se torne um processo contínuo de evolução institucional, capaz de acompanhar o aumento da complexidade e das demandas do setor público.
A área-meio como base da eficiência
Outro ponto essencial para a modernização institucional é o papel da área-meio na sustentação da atuação das instituições. Historicamente, muitas iniciativas de transformação digital no sistema de Justiça concentraram esforços nas atividades finalísticas. No entanto, a eficiência institucional depende diretamente da qualidade da gestão administrativa e da organização dos processos internos que dão suporte à atuação finalística.
Gestão integrada, fluxos estruturados e rastreabilidade são essenciais para sustentar ganhos consistentes de eficiência em áreas como: gestão financeira, patrimonial, de contratos, almoxarifado, frotas e obras.
Experiências recentes apresentadas durante o evento demonstraram que a adoção de plataformas digitais integradas permite estruturar fluxos administrativos, por meio de BPM e GED, capazes de conectar milhares de servidores em processos organizados, com rastreabilidade, segurança jurídica e maior transparência. No Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), por exemplo, a digitalização e integração de fluxos administrativos permitiram estruturar rotinas internas com maior controle e previsibilidade, reduzindo retrabalho e ampliando a eficiência na tramitação de demandas internas.
Quando a área-meio está organizada e apoiada por governança digital, a instituição ganha capacidade para lidar com volumes maiores de demanda, reduzir retrabalho e manter conformidade, sem comprometer a segurança ou a qualidade da atuação.
Governança digital e inteligência para decisões
Outro elemento central da modernização institucional é a governança digital. Em organizações complexas, como os Ministérios Públicos, a eficiência está diretamente relacionada à capacidade de organizar informações, integrar dados e transformar esse conjunto em inteligência para a tomada de decisão.
A governança digital pressupõe a criação de um ambiente em que processos, dados e decisões estejam conectados, permitindo maior visibilidade institucional, redução de riscos e decisões orientadas por dados confiáveis.
Quando a informação está estruturada, acessível e auditável, a gestão passa a ter melhores condições de antecipar cenários, acompanhar indicadores e direcionar recursos com mais precisão. Em instituições que adotaram esse modelo, houve redução superior a 10% no tempo médio de resposta a intimações e maior controle sobre o andamento dos processos.
Nesse contexto, a digitalização deixa de ter apenas um papel operacional. Ela passa a sustentar a governança e a ampliar a capacidade de gestão das instituições, contribuindo para que a transformação digital produza resultados efetivos e duradouros.
Modernização com visão sistêmica: governança aplicada à gestão de obras e projetos públicos
A transformação digital precisa ser compreendida de forma sistêmica. A governança institucional não se limita aos fluxos administrativos ou aos processos internos, mas envolve também a gestão de contratos, obras públicas, recursos e projetos estratégicos, que exigem acompanhamento contínuo, controle e transparência.
O uso de plataformas digitais para a gestão de obras, por exemplo, permite integrar medições, fiscalização técnica, indicadores e controle financeiro em um único ambiente, garantindo maior visibilidade sobre o andamento dos projetos e facilitando a atuação dos gestores.
Esse tipo de estrutura amplia a transparência, fortalece o controle institucional e permite que as decisões sejam tomadas com base em dados atualizados e confiáveis. Experiências apresentadas durante o evento demonstraram que a adoção desse modelo contribui para reduzir o tempo de aprovação de medições, aumentar a previsibilidade na execução de projetos e melhorar o acompanhamento das atividades em todas as etapas.
No Ministério Público de Goiás (MPGO), por exemplo, a utilização de plataforma digital para gestão de obras permitiu centralizar informações, integrar áreas técnicas e administrativas e ampliar o controle sobre contratos e medições, trazendo mais transparência e segurança para a execução dos projetos.
Além dos ganhos operacionais, a digitalização também contribui para reduzir o uso de papel, deslocamentos e custos logísticos, reforçando o compromisso das instituições com eficiência e sustentabilidade.
Inteligência artificial com responsabilidade
A discussão sobre inteligência artificial também esteve presente ao longo do ENASTIC, refletindo o avanço dessas tecnologias no setor público e as novas possibilidades para a gestão institucional. O uso de IA tem potencial para ampliar a capacidade de análise de dados, automatizar tarefas repetitivas e apoiar a tomada de decisão em ambientes cada vez mais complexos.
No contexto das instituições públicas, porém, a adoção dessas soluções precisa estar alinhada a princípios de governança, segurança da informação, rastreabilidade e conformidade. Mais do que incorporar novas ferramentas, o desafio é garantir que a inteligência artificial seja aplicada de forma responsável, integrada aos processos institucionais e compatível com os requisitos de controle e transparência que caracterizam a atuação do setor público.
Quando utilizada com esse propósito, a IA pode contribuir para organizar grandes volumes de informação, acelerar fluxos de trabalho e fornecer suporte qualificado para decisões estratégicas.
O princípio, no entanto, permanece o mesmo: a inovação precisa estar a serviço da instituição e da sociedade, e não apenas da tecnologia.
Eficiência como compromisso com a sociedade
Ao final, toda discussão sobre modernização institucional converge para um objetivo comum: ampliar a capacidade das instituições de atender melhor a sociedade. Quando processos são organizados, a gestão é integrada e a tecnologia é aplicada com governança, as organizações ganham tempo, previsibilidade e segurança para atuar.
Esse ganho de eficiência permite direcionar esforços para aquilo que realmente importa: a qualidade da atuação institucional, a consistência das decisões e a entrega de resultados que impactam diretamente o cidadão. Mais do que um indicador de desempenho, a eficiência é condição essencial para que a modernização institucional no Ministério Público exerça sua missão com transparência, responsabilidade e efetividade.
Eventos como o ENASTIC têm um papel relevante nesse processo ao promover o diálogo entre instituições, especialistas e gestores públicos, criando um ambiente de troca de experiências e construção conjunta de soluções para os desafios do setor.
A evolução do setor público não depende apenas de novas tecnologias, mas da capacidade de alinhar governança, conhecimento e inovação em uma mesma direção. É esse equilíbrio que permite avançar com segurança e ampliar, de forma consistente, a eficiência e a qualidade dos serviços prestados à sociedade.
Márcio Huri é Diretor Comercial da Softplan, com mais de 20 anos de experiência no ecossistema de tecnologia e no relacionamento com o setor público. Ao longo de sua trajetória, atuou na liderança de operações comerciais complexas, com forte atuação em estratégia, desenvolvimento de equipes, gestão de grandes contas e profundo conhecimento em processos licitatórios, contratos governamentais e governança, contribuindo para a expansão de negócios e o fortalecimento da atuação institucional de empresas junto a órgãos públicos.
